Em 2000, a França era o segundo produtor mundial de telemóveis. Hoje a fileira eletrónica francesa pesa cerca de 130 000 empregos, quando a Alemanha conta 350 000 e a Europa 9,5 milhões. Entre os dois, falou-se sobretudo do custo do trabalho. Erradamente.
o custo horário não decide nada
O argumento reflexo contra a produção francesa é o salário. Só que a diferença fechou-se: no final de 2019, uma hora na indústria custava cerca de 38,70 € em França contra perto de 42 € na Alemanha. E numa placa eletrónica, a mão de obra direta pesa apenas uma fração do custo à saída da fábrica. O resto é a matéria, os custos não recorrentes, os volumes mínimos de encomenda, o transporte, as alfândegas, e o custo dos retornos de qualidade quando a linha está a 9 000 km.
O verdadeiro handicap francês está noutro lado: uma supply chain rígida e pouco digitalizada, uma ferramenta de produção a quem falta flexibilidade, uma eletrónica profissional muitas vezes atrasada face ao grande público, uma capacidade de investimento limitada face aos asiáticos e aos americanos. Eis o cálculo real.
o bloqueio é a base industrial
Quando se quer relocalizar, o primeiro obstáculo não é o preço, é encontrar o bom subcontratante eletrónico (EMS). O tecido existe, mas é preciso qualificá-lo, e isso não se improvisa.
O método que funciona parece um funil. Num perímetro regional, identifica-se cerca de sessenta EMS, encontram-se cerca de vinte, visitam-se dezasseis, constrói-se uma verdadeira relação com uma dúzia. Em cada etapa, aperta-se sobre o concreto: superfície e localização da fábrica, volume de negócios e referências, capacidades em volume, equipamentos, certificações, processos de qualidade, gestão de resíduos, e capacidade de testar o produto (ICT, FCT) tanto como de o montar.
O ponto de viragem é o RFQ. Envia-se a todos o mesmo dossier, construído sobre um projeto representativo: documentação completa (BOM, Gerbers, esquemas), lista e sequenciamento dos testes, modo operatório, exigências de rastreabilidade e de packaging. É esse dossier idêntico que torna os preços e os prazos comparáveis. Depois vai-se auditar a linha no local. Um EMS não se escolhe sobre um orçamento, escolhe-se depois de o ver produzir.
sem automatização, não se aguenta
Relocalizar uma linha fabricada até aqui na Ásia só é viável automatizando ao máximo. É uma condição, não uma opção. As alavancas acumulam-se: linhas SMD automatizadas, logística interna automatizada, cobots, linhas modulares, gémeo virtual do back-end, automatização dos testes e controlos, redução dos tempos máquina não produtivos, interoperabilidade dos sistemas de informação. O operador não é substituído, é aumentado.
O efeito é duplo. A automatização compensa a diferença de mão de obra direta, e ataca a mão de obra indireta (gestão de stock, controlo de qualidade), que pesa muitas vezes mais do que se pensa. O quadro público acompanhou: a sobreamortização sobre os investimentos produtivos pode atingir 40 % de subvenção para as PME e ETI que modernizam a sua ferramenta.
o peso morto que ninguém olha
Há um custo que se esquece sistematicamente: o stock. Na eletrónica, 60 % do mercado do componente é detido por dois distribuidores, sobre uma procura cada vez mais volátil e um aprovisionamento rígido. Resultado: stock em todas as etapas, stock morto de mais de doze meses, e um peso financeiro que recai sobretudo sobre os subcontratantes de produção.
Uma cadeia mais transparente e mutualizada poderia reduzir o stock total em cerca de 15 %. Não é uma linha contabilística: é capacidade de investimento libertada para automatizar, formar, subir em gama. A relocalização não se joga só na fábrica, joga-se em toda a cadeia.
então, quando é que ganha?
Relocalizar não é um slogan patriótico, é uma disciplina de sourcing e de industrialização. O cálculo pende para a França ou a Europa em casos precisos:
- volumes baixos e forte mix, onde os MOQ e o sobrecusto logístico asiáticos comem a vantagem de preço;
- propriedade intelectual sensível, onde enviar os seus Gerbers para o outro lado do mundo é um risco em si;
- time-to-market curto, onde a proximidade da linha faz ganhar semanas a cada iteração;
- rastreabilidade e ecoconceção, cada vez mais regulamentares, mais fáceis de manter e de auditar perto de casa.
O custo horário já não é o argumento. A verdadeira questão: tem uma base de EMS qualificada, uma linha automatizada e uma cadeia suficientemente digitalizada para que a proximidade se torne uma vantagem em vez de um sobrecusto? É aí que se ganha, ou se perde, o Made in France.